Pan-Americano não permite 'a participação devida da população', na
opinião de moradores de comunidades carentes do Rio
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Durante seminário realizado no Rio de Janeiro, especialistas e
representantes do Poder Público concordam que investimentos para a
realização dos jogos precisam ser convertidos em benefícios concretos
para a população menos favorecida.
Nesta quinta-feira, profissionais da área de assistência social e
autoridades públicas reuniram-se no Hotel Othon Palace, em Copacabana,
no segundo e último dia do Seminário "Tecendo a Rede Fazendo agora,
Pensando no Futuro". Um dos objetivos do evento foi discutir a herança
que os Jogos Pan-Americanos deixarão para a cidade. Segundo José Ribamar Pereira Filho, consultor do Ministério do Esporte,
afirmou que o Governo Federal está investindo R$ 1,8 bilhão nos jogos
Pan-Americanos, ou seja, aproximadamente metade da verba para execução
do evento.
Apesar do alto investimento, que também visa à candidatura do Brasil
como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016,
pesquisa realizada pelo Observatório das Favelas junto a comunidades
carentes concluiu que os entrevistados consideram que o Pan-Americano
não permite sequer "a participação devida da população".
Presente ao evento, Edson Diniz Nóbrega Júnior, do Observatório das
Favelas, informou que esta instituição está há cerca de um ano e meio
realizando pesquisas com comunidades carentes com o objetivo de
verificar o que a população pensa do Pan e, principalmente, o que acham
que o evento deixará para as localidades no entorno dos complexos
esportivos. Segundo ele, uma das tentativas de tentar reverter essa
percepção foi a criação do ingresso social, cujo objetivo é permitir a
participação dessa parcela da população. O especialista é coordenador do
projeto Legado Social dos XV Jogos Pan-Americanos 2007, desenvolvido
pelo Observatório das Favelas.
Situação crítica
Segundo Édson Nóbrega Júnior, a pesquisa resultou em um relatório que
será entregue às autoridades amanhã (06/07/2007). Ele chamou atenção
para o fato de que existem cerca de 600 mil pessoas em comunidades
carentes, próximas aos locais em que serão realizados os jogos, e que há
"lugares no Rio que ainda não conseguiram o básico, vivendo como se
estivessem no século XIX". De forma que, para ele, "os Jogos
Pan-Americanos darão uma contribuição muito grande ao fazer com que
questionemos o modelo de desenvolvimento econômico e social do país".
De acordo com o palestrante, a desigualdade social existente na cidade
carioca se reflete na expectativa de vida da população de acordo com o
local de moradia: enquanto uma pessoa que nasce no Leblon, bairro da
cidade considerado nobre, provavelmente viverá até os 80 anos, a que
nasce na Maré, uma comunidade carente, tem poucas chances de passar dos
64 anos. A discrepância é nítida também no setor econômico. Um morador
do Leblon tem uma renda per capita de R$ 3.000, já o da Maré, de apenas
R$ 300. Segundo o palestrante, na Maré, existem 132 mil habitantes, dos
quais cerca de 40% estão na faixa dos 0 a 17 anos.
José Ribamar Pereira Filho concorda que os investimentos feitos para a
realização do Pan-Americano precisam ser revertidos para a população de
alguma forma. Nesse sentido, em junho de 2006, foi formado um convênio
entre o Ministério do Esporte, o Observatório das Favelas e o Ministério
de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Ele explicou que o
projeto desenvolvido tem três eixos: estabelecer metas no país para o
desenvolvimento social, realizar um diagnóstico da situação e
potencializar os programas sociais já existentes.
Também presente ao evento, José Eduardo de Andrade, representante do
Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, acrescentou que o
município do Rio de Janeiro também já possuía uma agenda social para os
Jogos com o mesmo conceito e que, desde janeiro deste ano, o governo
federal também passou a fazer parte dos diálogos do convênio. Segundo o
palestrante, essa união de diferentes áreas governamentais é fundamental
para que os projetos tenham continuidade. Ele destacou que há 53
comunidades no entorno dos complexos esportivos que sediarão os jogos.
Agência Notisa (jornalismo científico – science journalism)
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