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Notícias Unisite

08/02/2010 - 09:25:47

DESAFIOS DA NOVA DÉCADA

*Roberto Musatti

ALTERA O
TAMANHO DA LETRA


Conversando com um amigo de viagem estrangeiro, apaixonado pelo Brasil, a pergunta mais intrigante parecem refletir o espanto com o qual o mundo convive nos últimos tempos com nosso país. De um lado um gigante que parece ter começado a engrenar as marchas para um crescimento baseado em suas vantagens comparativas climáticas e naturais. De outro lado, uma nação que insiste nos desmandos adquiridos pela cultura histórica colonial, que nem a imigração do século passado ou a atual globalização parecem ter conseguido debelar. ‘Por que o Brasil não se desenvolve?’

Um apanhado dos últimos meses consegue responder em boa parte esta questão ainda que rebuscando nos bastidores tanto do poder como das noticias.

Fechamos o ano com mais um escândalo de corrupção em Brasília: Dinheiro em meias, envelopes no bolso com sorrisos, pastas com numerário sendo filmadas e a versão do Planalto que ‘imagens não são definitivas’. Para adicionar ainda mais a vergonha nacional, a valente cavalaria da PM investiu contra os perigosos estudantes que faziam protesto e vigília ao melhor estilo da repressão em curso na Venezuela e Irã, os novos parâmetros de referencia da ala internacional lulista comandada pelo performático MAG (o do top-top) e seu fiel escudeiro Amorim.

Tanto o prefeito do DF como os vereadores-artistas filmados no imbróglio, continuam livres e soltos, privilegio este estendido também ao banqueiro Dantas cujo processo foi devidamente freado por instancias superiores da justiça. Idem para os desmandos com recursos públicos na construção de aeroportos, atendendo pedido de empreiteira envolvida nas investigações. Idem para a censura que continua em vigor no jornal ‘O Estado de S.Paulo’ para tudo que envolva o nome da família Sarney, mesmo depois do patriarca mor ter sido flagrado com os dedos lambuzados em improbidades administrativas, inaceitáveis ainda mais em se tratando de um ex-1º mandatário e imortal das letras. Mais uma vez a filosofia lulista alcançou novos patamares quando exigiu um tratamento diferenciado ao nobre senador ‘pelo seu passado histórico’. Pena que a Constituição não preveja esta exceção.

Água que começa no topo da pirâmide rapidamente se desloca para sua base. Não é difícil imaginar os desmandos que se multiplicam nos municípios, agora com o aval da impunidade que grassa nas paisagens do Planalto Central de Goiás. Filmagens de achaque, suborno e pressão passaram a fazer parte do cotidiano nacional, até perdendo seu interesse jornalístico.

Nunca na historia deste país o sentimento de impunidade esteve tão enraizado na cultura do cotidiano, fato que é a base dos demais desmandos que resultam no tão mencionado ‘custo Brasil’. Por ser este o ultimo ano garantido de governo petista, o revanchismo, deixado de lado até pouco veio à tona com toda a força.

Não bastava gastar fortunas com indenizações malucas aos participantes da luta armada entre as forças de oposição (terroristas) de esquerda e a ditadura militar, sem sequer se preocupar com as baixas do lado oposto. Ao contrario do exemplo sul-africano, no apagar das luzes do ano tanto Lula como Dilma assinam um projeto de lei estapafúrdio que conseguiram não ler e que contem nas entrelinhas o fim da anistia indistinta que pacificou o país após a ditadura. Enquanto os militares são passiveis de processo por todos os crimes cometidos nada é determinado para aqueles que assaltaram, seqüestraram, explodiram, feriram ou mataram até civis inocentes, na sua luta para instituir um regime de esquerda também ditatorial e antidemocrático.

Como desgraça pouca é besteira, o dito projeto acaba também com o direito de propriedade no agronegocio (responsável por boa parte das exportações e grande parte do excedente da balança comercial) ao transferir a tribunais populares a discussão da posse agrária. Nada a se estranhar de uma claque que acha Cuba uma democracia, Chaves um democrata eleito, a Bolívia nosso irmão pobre, a eleição de Ahmedinajar no Irã absolutamente legal e democrática, espelho da tolerância universal do governo teocrático dos Aiatolás.

O Brasil não se desenvolve mesmo pagando 38% do PIB para o setor publico em impostos: as estradas continuam matando mais que as guerras do Iraque ou Afeganistão todo o ano. As inundações causando prejuízos anuais equivalentes ao PIB do Equador e os apagões se sucedendo mesmo com os reservatórios apresentando quase 85% da capacidade possível. A fome só não é maior devido ao assistencialismo das Bolsas Família que por outro lado perversamente perpetuam a dependência em vez de preparar para a independência econômica.

A ‘marolinha’ da crise se espelha nos 9% de desemprego constante, na liderança mundial de juros e spread. Na crônica falta de credito, encalhada nos 39% do PIB (contra 110% nos paises desenvolvidos) e no tombo da produção, exportação industrial – fruto da política cambial, da ‘doença holandesa’ que assim como a gripe suína todos falam, mas poucos fazem algo a respeito.

Os desafios estão aí especialmente em ano político: crescer com desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida e padrão de consumo da população sem artifícios cambiais, assistenciais ou populistas. Tudo isso e ainda controlar a megalomania que se apossou do Planalto que se acha agora representante dos paises em desenvolvimento, com direito a botar o dedo no nariz do primeiro mundo tido como irresponsável, colonialista e poluidor...

É pouco? Ainda por cima temos que ganhar a Copa - sem duvida, prioridade incontestável.

Roberto Musatti - Economista (USP) Mestre em Marketing (Michigan State) Professor da REGES