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Notícias Unisite

19/08/2009 - 15:57:46

VALORES E ÉTICA

*Roberto Musatti

ALTERA O
TAMANHO DA LETRA


A sucessão dos fatos lamentáveis no campo político brasileiro que têm se alastrado pela sociedade, chegou a tal intensidade que é possível decretar um ‘estado de emergência’ nos valores e por conseqüência na Ética – o conjunto de valores e contra-valores historicamente enraizados e praticados.

Somente a distorção da ética via inversão de valores – consegue explicar o momento atual da sociedade brasileira, que apesar disto consegue angariar admiração externa pelos seus feitos econômicos, ainda imunes à metástase do câncer que corroe suas entranhas. Explicações abundam, a começar com a sempre presente herança histórica: Colônia de exploração, sem preocupação da criação, desenvolvimento e crescimento de uma classe média colonizadora, eventualmente consumidora, produtora, geradora de empregos e renda, que representasse o alicerce da verdadeira democracia –“do povo, pelo povo e para o povo”, como dito por Lincoln.

No seu lugar desenvolveram-se oligarquias regionais, elitistas, latifundiárias e escravocratas que para garantir o sucesso de suas empreitas econômicas, firmaram acordos com as potencias industriais e comerciais da época (Holanda e subsequentemente, Inglaterra) garantindo o garrote nos incipientes setores industrial e comercial do país. Ganhava-se de bônus a atrofia da classe media burguesa e o cadafalso na incipiente classe operaria sindicalista.

O grande problema atual do país pode ser expresso em uma única palavra: Impunidade. Enraizada por séculos de absolutismo, continua a grassar nos círculos do poder como se ainda vivêssemos na época dos Orleans e Bragança.

Do lado oposto, fica a massa popular, distante, conformada e silenciosa diante das barbáries – a pior situação possível para qualquer democracia que se sente então liberada para associar tons e cores típicas do totalitarismo.

Alguns justificam esta paralisia popular, frontalmente oposta ao comportamento dos irmãos argentinos, pela dissociação ou desinteresse histórico entre os eventos do poder público e o povo, que pela escala das necessidades de Maslow, luta cotidianamente pela sobrevivência pura e simples, focando suas alegrias no futebol e no carnaval.

Esta ética distorcida, fruto da inversão ou ausência de valores pode também ser herança do sucesso que o Brasil teve até hoje de não ter de se defender militarmente para sobreviver ou garantir a continuidade de seus valores pátrios.

Recentemente na transmissão de uma partida amistosa de futebol contra a Itália, assistimos cena deplorável: enquanto a ‘Squadra Azzurra’ cantava a plenos pulmões seu hino, na sua vez nossos ‘canarinhos’ mal balbuciavam, denotando lamentável desconhecimento. Tudo que se refere a valores pátrios é aqui considerado ‘brega’ ou pobre de espírito: da bandeira nacional na casa, no carro ou no uniforme esportivo. Iraquianos brigam por uma camisa da CBF enquanto nossos jovens sonham com as dos ‘Laker’s’, Milan ou Real Madrid.

Interessante a este respeito, o filme exibido esta semana por canal da TV por assinatura que retrata a historia real do repatriamento de um soldado americano morto no Iraque, originário de uma pequena cidade do interior. Acompanhado por um oficial dos fuzileiros, mostra o tom natural de reverencia e respeito expresso por onde passava – dos funcionários do aeroporto, passageiros e tripulação do avião até o comboio rodoviário espontâneo formado progressivamente, como escolta para o esquife envolto na bandeira de listras e estrelas. Pode-se contestar de forma eloqüente a validade e os princípios que norteiam estas intervenções militares, mas é fato incontestável que servem tragicamente para manter vivos os valores e a ética desta sociedade através das gerações.

A impunidade garantida aqui ao circulo do poder - aí incluídos amigos, familiares e parceiros – transformou a ótica dos valores: através de sua quebra constante e repetitiva tornou-a uma tradição adquirida. Assim, não consegue esta ‘elite’ ver problema algum em utilizar dinheiro público para passagens de lazer para parentes ou terceiros mais chegados. Idem para atender pedidos de empregos fictícios dos mais chegados laços familiares ou trocar favores de posições remuneradas visando garantir a malfadada ‘governabilidade’. Não se avexam em designar ‘verdadeiros despachantes’ de facilidades exclusivas como estacionamento, atendimento priorizado em aeroportos ou ainda isenções alfandegárias. Nem sentem constrangimento de possuírem benesses únicas (e inexistentes para os demais cidadãos) como seguro saúde e odontológico privado vitalício para si e seus comensais.

A ausência destes valores atinge sua vertente máxima quando justamente o topo da pirâmide política defende a impunidade em face da disseminação dos abusos pela oficialização do personagem ‘Tavares’ e seu bordão “Sou, mas quem não é?”. Qualquer associação é válida para a manutenção do poder mesmo que destrua os valores partidários originais – vide discursos ou fotos de outrora ferrenhos opositores, agora em caloroso bate-papo que sacramenta o coronelismo e as sesmarias em pleno século XXI.

Como exigir ou orientar os jovens quando pretendentes ao cargo máximo, espelho de nossos valores, se mostram surpresos ao serem pegos faltando com a verdade até em seus Currículo Lates, invocando títulos jamais obtidos? Para estes jovens em busca de novos horizontes resta ‘o país de Gerson’ onde levar vantagem é sinônimo de cargos públicos que remuneram absurdamente acima do setor privado produtor, investidor e empreendedor, sem jamais correr o risco do possível fracasso.

Mesmo quando nascemos iguais, infelizmente nossos atuais valores invertidos e a ética distorcida garantem que alguns sejam mais iguais que outros, impunes ‘pelo seu histórico’, como se expressou nosso alcaide-mor.

Roberto Musatti - Economista (USP) Mestre em Marketing (Michigan State) Professor da REGES