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18/11/2008 - 08:24:49
É A CRISE, PÔ!*Roberto Musatti
As noticias e os comentários da crise financeira mundial não cessam de preencher sua quota de impacto na imprensa, demandando crescentes noticias desastrosas para poder voltar às manchetes, quase sempre numa multiplicidade de pontos de vista e um vocabulário ‘economês’ que desafia o entendimento da maioria dos leigos no assunto, justamente os mais afetados de forma real e emocional por este que é apenas mais um ciclo econômico negativo.
Durante anos a economia global viveu o que se convencionou de ‘exuberância irracional’ dos mercados financeiros: altos retornos, lucros, financiamentos, credito, salários e bônus – fruto de um aumento no comercio e PIB mundial pela entrada de milhões de novos consumidores oriundos da China, Russia, países da Europa Oriental e das antigas republicas da União Soviética. Estes mercados saem do sistema comunista ou do simples subdesenvolvimento (Índia e Brasil) para a economia de mercado. O aumento do consumo desta nova massa demográfica de classe assalariada resulta na explosão dos preços das commodities e nos excedentes econômicos dos países exportadores destas matérias primas, todas com aumento de preços acima de 100% nos últimos anos como os países membros da OPEP, o Chile com o Cobre, a Rússia e o Equador com o Gás e o Brasil do agronegócio e minério de ferro - que de devedor perene ao FMI passa a credor, com mais de US$ 200 bi em reservas cambiais. Sem contar com a China e seus US$ 1.1 tri de reservas, fruto da exportação de manufaturados com moeda sub-valorizada – verdadeiro ‘dumping’ global.
Esta situação de excesso de liquidez global é turbinada pela 1) desvalorização do dólar frente a maioria das moedas – resultado dos constantes e crescentes déficits da balança comercial americana e seu resultado primário onde despesas ultrapassam em bilhões anuais a arrecadação de impostos e 2) Movimentos especulativos nas Bolsas de Mercadorias deste capital cigano, sempre em busca de crescentes retornos (renda variável) frente a taxas reais de juros decrescentes (renda fixa), ferramenta de controle e incentivo á atividade econômica.
Retorno, risco e a ganância predominam sobre a cautela e o medo. A economia americana, responsável por 25% do PIB e comercio mundial se expande encima do endividamento (350% do PIB) nacional expresso no mundo real nas diversas ‘bolhas’, inchaços econômicos como as hipotecas do setor imobiliário, e nos papeis de investimento advindos da ‘engenharia financeira’ desenvolvida e paga a preço de ouro pelos Bancos de Investimento de Wall Street (leia-se Bear Sterns, Lehman, Merryl Linch) aos geninhos matemáticos do MIT, Harvard, Stanford e similares - os vários ‘subprime’ de alto retorno e risco, este muitas vezes abaixo do nível aceitável – alavancados até 35 vezes (para cada dólar de subprime, outros 35 eram gerados por estas marcas símbolo da exuberância financeira americana e mundial. O primeiro dominó a cair foram as hipotecas daqueles “ninjas” que nunca teriam condições de financiar sua casa própria, mas ainda temos pela frente os cartões de credito, os financiamentos de automóveis, as ‘arbitragens’ de juros e moedas, os ‘hedges’ de proteção cambial e toda parafernália de operações exóticas de alto risco que ficaram durante anos fora dos balanços, gerando riquezas fictícias, altas (e indecentes) comissões, que agora terão que voltar á realidade do ‘planeta Terra’. O setor financeiro terá de voltar a ser por volta de 60% maior que o produtivo saindo dos atuais 300%: Serão quase US$ 70 tri que terão que sumir dos balanços e bolsos.
Qualquer economia vive de dois fatores – SEGURANÇA do setor financeiro e circulação do dinheiro via CREDITO e tanto o varejo como a indústria (setor produtivo da economia) dependem de forma umbilical da estabilidade financeira.
A Segurança é um conceito Comportamental com o Emocional quase sempre falando mais alto que o racional - daí a explicação do porque se passa da euforia do crescimento ao pânico da recessão em curto espaço de tempo. Os governos e seus Bancos Centrais já fizeram a 1ª parte de suas obrigações (de forma oposta à crise de 29), garantindo a saúde das instituições financeiras e a segurança dos depositantes. Saímos então da crise financeira para econômica.
É baboseira da esquerda revanchista que estamos entrando em novo ciclo de intervenção pública na economia e decretando o fim do modelo de liberalismo capitalista. Não existe contradição na coexistência das duas coisas, pois é justamente no capitalismo livre que se delega ao Estado a função de intervir para corrigir distorções do mercado e justamente garantir a confiança da população nas instituições, sistema financeiro e moeda, se afastando uma vez conseguido o desejado equilíbrio.
No mundo atual a economia é comportamental e Percepções são tudo: regulam as atitudes, o consumo, as tendências e as ações da sociedade. Toda crise econômica é função de uma forte percepção de perda de confiança que resulta numa mudança nos padrões de consumo: o efeito “Cocoon” da procura por liquidez, aversão a risco e redução dos gastos para básicos e justificáveis, especialmente quando ninguém é mais tão grande que não possa sucumbir.
Surge assim o paradoxo da liquidez: quando todos priorizem a liquidez, a economia perde toda sua liquidez, pois não há circulação de moeda, de credito.
Caem as vendas, a produção, os investimentos e o emprego – num circulo vicioso que em espiral leva a economia e os consumidores à recessão que tanto temiam, mas que tanto foram responsáveis (não de forma pensada) para que se tornasse realidade, agindo como um magneto comportamental.
As ações dos governos visam não apenas consertar o que está errado na economia, mas primordialmente mudar as Percepções: Empresários devem INVESTIR, banqueiros dar CRÉDITO e consumidores CONSUMIR - algo difícil num ambiente de crescentes resultados negativos, porem destas mudanças depende o panorama futuro: de recessão ou ‘aterrissagens suaves ou abruptas’ da atividade econômica em diferentes países.
Até lá, tanto lá como cá tudo será atribuído à Crise, bolas!
Durante anos a economia global viveu o que se convencionou de ‘exuberância irracional’ dos mercados financeiros: altos retornos, lucros, financiamentos, credito, salários e bônus – fruto de um aumento no comercio e PIB mundial pela entrada de milhões de novos consumidores oriundos da China, Russia, países da Europa Oriental e das antigas republicas da União Soviética. Estes mercados saem do sistema comunista ou do simples subdesenvolvimento (Índia e Brasil) para a economia de mercado. O aumento do consumo desta nova massa demográfica de classe assalariada resulta na explosão dos preços das commodities e nos excedentes econômicos dos países exportadores destas matérias primas, todas com aumento de preços acima de 100% nos últimos anos como os países membros da OPEP, o Chile com o Cobre, a Rússia e o Equador com o Gás e o Brasil do agronegócio e minério de ferro - que de devedor perene ao FMI passa a credor, com mais de US$ 200 bi em reservas cambiais. Sem contar com a China e seus US$ 1.1 tri de reservas, fruto da exportação de manufaturados com moeda sub-valorizada – verdadeiro ‘dumping’ global.
Esta situação de excesso de liquidez global é turbinada pela 1) desvalorização do dólar frente a maioria das moedas – resultado dos constantes e crescentes déficits da balança comercial americana e seu resultado primário onde despesas ultrapassam em bilhões anuais a arrecadação de impostos e 2) Movimentos especulativos nas Bolsas de Mercadorias deste capital cigano, sempre em busca de crescentes retornos (renda variável) frente a taxas reais de juros decrescentes (renda fixa), ferramenta de controle e incentivo á atividade econômica.
Retorno, risco e a ganância predominam sobre a cautela e o medo. A economia americana, responsável por 25% do PIB e comercio mundial se expande encima do endividamento (350% do PIB) nacional expresso no mundo real nas diversas ‘bolhas’, inchaços econômicos como as hipotecas do setor imobiliário, e nos papeis de investimento advindos da ‘engenharia financeira’ desenvolvida e paga a preço de ouro pelos Bancos de Investimento de Wall Street (leia-se Bear Sterns, Lehman, Merryl Linch) aos geninhos matemáticos do MIT, Harvard, Stanford e similares - os vários ‘subprime’ de alto retorno e risco, este muitas vezes abaixo do nível aceitável – alavancados até 35 vezes (para cada dólar de subprime, outros 35 eram gerados por estas marcas símbolo da exuberância financeira americana e mundial. O primeiro dominó a cair foram as hipotecas daqueles “ninjas” que nunca teriam condições de financiar sua casa própria, mas ainda temos pela frente os cartões de credito, os financiamentos de automóveis, as ‘arbitragens’ de juros e moedas, os ‘hedges’ de proteção cambial e toda parafernália de operações exóticas de alto risco que ficaram durante anos fora dos balanços, gerando riquezas fictícias, altas (e indecentes) comissões, que agora terão que voltar á realidade do ‘planeta Terra’. O setor financeiro terá de voltar a ser por volta de 60% maior que o produtivo saindo dos atuais 300%: Serão quase US$ 70 tri que terão que sumir dos balanços e bolsos.
Qualquer economia vive de dois fatores – SEGURANÇA do setor financeiro e circulação do dinheiro via CREDITO e tanto o varejo como a indústria (setor produtivo da economia) dependem de forma umbilical da estabilidade financeira.
A Segurança é um conceito Comportamental com o Emocional quase sempre falando mais alto que o racional - daí a explicação do porque se passa da euforia do crescimento ao pânico da recessão em curto espaço de tempo. Os governos e seus Bancos Centrais já fizeram a 1ª parte de suas obrigações (de forma oposta à crise de 29), garantindo a saúde das instituições financeiras e a segurança dos depositantes. Saímos então da crise financeira para econômica.
É baboseira da esquerda revanchista que estamos entrando em novo ciclo de intervenção pública na economia e decretando o fim do modelo de liberalismo capitalista. Não existe contradição na coexistência das duas coisas, pois é justamente no capitalismo livre que se delega ao Estado a função de intervir para corrigir distorções do mercado e justamente garantir a confiança da população nas instituições, sistema financeiro e moeda, se afastando uma vez conseguido o desejado equilíbrio.
No mundo atual a economia é comportamental e Percepções são tudo: regulam as atitudes, o consumo, as tendências e as ações da sociedade. Toda crise econômica é função de uma forte percepção de perda de confiança que resulta numa mudança nos padrões de consumo: o efeito “Cocoon” da procura por liquidez, aversão a risco e redução dos gastos para básicos e justificáveis, especialmente quando ninguém é mais tão grande que não possa sucumbir.
Surge assim o paradoxo da liquidez: quando todos priorizem a liquidez, a economia perde toda sua liquidez, pois não há circulação de moeda, de credito.
Caem as vendas, a produção, os investimentos e o emprego – num circulo vicioso que em espiral leva a economia e os consumidores à recessão que tanto temiam, mas que tanto foram responsáveis (não de forma pensada) para que se tornasse realidade, agindo como um magneto comportamental.
As ações dos governos visam não apenas consertar o que está errado na economia, mas primordialmente mudar as Percepções: Empresários devem INVESTIR, banqueiros dar CRÉDITO e consumidores CONSUMIR - algo difícil num ambiente de crescentes resultados negativos, porem destas mudanças depende o panorama futuro: de recessão ou ‘aterrissagens suaves ou abruptas’ da atividade econômica em diferentes países.
Até lá, tanto lá como cá tudo será atribuído à Crise, bolas!
Roberto Musatti - Economista (USP) Mestre em Marketing (Michigan State)
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